Aperto o passo.
A rua está deserta.
O vento corta meu rosto em golpes violentos. Ele arde. O meu
nariz arde, sinto-o congelar.
Um gato branco atravessa a noite escura fugindo do frio. A
casa rosa, que está com uma luz fraca acessa em um dos cômodos, é o abrigo dele.
Ele corre ofegante.
Os devaneios são meus companheiros nessa caminhada
gelada.
O tocar dos sapatos na calçada suja é a trilha dessa
noite.
Desvio de um degrau.
Ufa! Que alívio alcança o portão de casa.
Recuo a mão ao tocá-lo. Está frio demais.
O frio quase congela a alma.
O porteiro me encara e com certo ar de sarcasmo:
-Até parece que está frio ali fora!
Apenas arco meus lábios ensaiando em um tímido sorriso.
Acelero os passos rumo ao elevador.
Um solavanco me tira por um segundo dos meus devaneios.
Aquela canção gostosa me vem à mente.
Os pensamentos me engolem.
Um aperto no peito.
Uma saudade que bate de leve.
Há um espaço vazio.
Ouço a voz a me dizer:
-Engole o choro menina!
A lágrima cai!
A solidão me assusta.
O elevador para.
A porta branca do corta-fogo está fria também.
A luz do corredor acende-se.
Ali no final do corredor está a porta do meu refugio.
Corro.
Apressada giro a
chave.
Tenho pressa.
A porta se abre com um leve empurrar.
A luz está apagada, prefiro deixa-la assim mesmo, as
luzes da cidade iluminam a penumbra do ambiente.
Na mesa pessoa nenhuma está sentada.
A toalha está com uma das pontas dobradas. Não me lembro
de ao certo do por que. Bom talvez o vento que entra uivando pela fresta da
janela tenha feito está arte.
O corredor está deserto, escuro. Não sinto medo. Apenas paz.
Estou em paz. Tranquila sigo com meus passos.
Na sala o sofá marfim. As almofadas marrons jogadas em
desalinho. A janela fechada impede o vento de congelar o ambiente. As cortinas imóveis.
Está tudo vazio.
Em um instante parece tudo abandonado. Sem vida. Vazio.
O banheiro sem vida.
A cozinha em um mortal silêncio.
Tudo está no seu devido lugar.
Paro. A porta do quarto está fechada.
Hesito.
Com um leve tocar da mão gelada na porta de madeira,
gigante a minha frente, abro ela devagar.
A escuridão me ofusca o olhar.
Nada vejo.
Nada ouço.
Toco o interruptor. Por um instante a claridade me cega. A
cama arrumada, o lençol lilás, o travesseiro com letras em vários modelos
estampadas, uma leve mistura das cores do arco íris colorem-no. O cobertor, com
minúsculos xadrezes em tons de verde e vermelho, dobrado aos pés da cama.
Apoio a cabeça no travesseiro da cor do arco íris.
Ao lado uma cadeira vazia preenche o espaço vazio da
parede.
Ela está vazia.
Vejo a miragem de alguém ali sentado a me observar.
Os devaneios me abraçam.
O cobertor xadrez
aquece meu corpo gelado.
O frio já não domina mais meus pensamentos.
O guarda-roupa branco está fechado.
Tudo está em ordem.
A iluminaria que me aquece nessa noite fria e lança
feixes de luz sobre meu pensar.
Vejo os espaços vazios.
A poltrona vazia.
Recordo-me de quem ali já esteve a descansar seu corpo
cansado.
Lembranças. Passados. Saudades. Sonhos. Pessoas. Emoções.
Expectativas. Frustrações. Futuros. Ambições. Mortes. Vidas. Perdas. Ganhos. Chegadas. Partidas. Espaços cheios de tanto vazio.