2 de junho de 2014

Me diz



Me diz que eu vou sobreviver com as memórias que me restaram.
Me diz que terei paz um dia.
Me diz que não vais me ligar mais.
Me diz que vais me devolver o sorriso que roubastes do meu rosto.
Me diz que eu não vou mais precisar ouvir aquela música e chorar.
Me diz que depois da tempestade o sol irá voltar.
Me diz que o inverno vai passar e que na primavera eu vou sentir o cheiro das flores.
Me diz que teu nome não vou mais saber pronunciar.
Me diz que tudo vai passar.
Me diz que vai.
Me diz que o fim já foi.
Me diz que um dia vou entender teus motivos.
Me diz que um dia vou deitar minha cabeça no travesseiro e não pensar em ti.
Me diz que um dia vou esquecer de nós.
Me diz.
Só me diz que vai passar.
Me diz que as memórias vão me deixar só.
E então só eu irei para além mar.
Me diz que poderia ir sem tuas memórias.
Sem as nossas memórias.

Me diz.

27 de maio de 2014

Cristais quebrados


Você espera que tantas pessoas te apunhalem.
Puxem-te o tapete.
Empurrem-te escada abaixo.
Mas quem você menos espera te tira o chão.
Quem você menos espera joga contra o chão o cristal da confiança com toda a força que conseguir.
Quem você esperava que lhe emprestasse um lenço é quem te fará chorar.
Quando a luz clareia o canto mais escuro da alma das pessoas que você acreditava conhecer enxerga-se com os próprios olhos que o que era belo já não existe mais.
Os cristais quebrados forram o chão pelo qual pisarei.
Se meus pés cortados estiverem ninguém se importará.
Os passos que eu conseguir dar com os meus pés quebrados me levarão para longe de ti.
Assim iriei rastejando para longe em busca da minha cura carregando meus cristais quebrados.


23 de maio de 2014

Confusões confusas


Meus pés flutuam sob um oceano de sensações.
Os sabores adocicados sumiram do meu paladar.
A lágrima que rola pela face salgada está.
A garganta se fecha em um nó.
O peito parece não caber mais em seu lugar e prestes a explodir está.
O vazio me consome.
Os risos silenciaram.
A noite cai.
O frio vem chegando e se intensificando segundo a segundo.
O adeus não virá.
O até logo paira no ar.
Os ventos pararam de soprar.
As estrelas já não brilham mais como na noite passada.
 Lua sob a nuvens escuras se escondeu.
As tempestades que por meus olhos passam já não me comovem mais.
Meus pés flutuam sob um oceano de sensações sem sentido, confusas.
Quem há de entender as confusões da vida?
As peças que a vida nos prega, quem as decifrará?
Quero bolo de chocolate doce enquanto observo meus pés flutuarem sob um oceano de emoções confundidas por sensações confusas. Tudo está confuso.

21 de maio de 2014

Improvisações



Improviso sonhos.
Improviso realidades.
Improviso risos.
Improviso lágrimas.
Improviso escritas.
Improviso leituras.
Improviso atitudes meramente contemplativas.
Improviso planos.
Improviso viagens para a lua.
Improviso uma caminhada para a estrela que brilha ao lado do sol.
Improviso um amor.
Improviso um desamor.
Improviso amizades.
Improviso inimigos.
Improviso um viver.
Vivo improvisando vidas e viveres.
Improvisações que nos mantem em pé.
Improvisações que nos distanciam de quem queremos pertinho de nós.
Improvisamos planos a dois para os vivermos solitariamente.
Improviso um choro.
Improviso uma lágrima.
Improviso caminhos.
Improviso idas e vindas.
Improviso um acorde.

Improviso um discurso.
Improviso improvisações para continuar improvisando.

Para continuar suportando, experimentando, vivendo, sonhando, escrevendo, descrevendo vidas, pessoas, vidas das pessoas cheias de improvisações.


Explosão


Minha garganta explode e a voz não ecoa.
O sol se esconde atrás de uma nuvem azul.
O ônibus já vai partir e tuas malas não posso segurar.
Escolhestes outro caminho. Infelizmente conheço-o.
Infelizmente por ele passarei, mas sem saber se teu rosto verei em alguma esquina.
Tu sombra a me perseguir estará.
Tua ausência presente estará.
Teu olhar estarei a procurar.
Tudo parece um sonho com uma doida explosão de realidade.
Sinto as molhadas lágrimas que caem.
Faz de conta não é.
Sinto meu rosto arder enquanto as mãos tremulam a enxugar as lágrimas.
Tudo explode em uma doida explosão de cores e sensações.
Passado e presente explodem em um futuro incerto.
Nada de certo há.
Nada de incerto também há.
As cores se misturam.
Os sentimentos se misturam.
Sinto que devo continuar a caminhar.
Vou sair a procurar novas cores e novas explosões.
Vou sair do meu armário e ver o sol na janela.


Palavras


Letras companheiras.
Embaladas por melodias que preenchem o espaço cheio de vazios.
Os sonhos parecem tão distantes.
As pernas sem forças não se movem.
A voz não ecoa mais sufocada pelo nó que preenche a garganta.
As palavras distantes tão vazias parecem
O significado já não existe mais, perdeu-se em alguma ventania.
Sinto falta de ouvir os poemas teus.
Poemas nada poéticos, nada legíveis.
Minhas assas pararam de voar.
O vento já não sopra mais.
A calmaria me consome.
As letras dançam frente meus olhos, sem se decidirem por um único compasso.
Tudo enlouquece.
Todos enlouquecem.
As fotografias enlouquecidas esquecidas foram por entre alguma bagagem.
As letras, palavras e frases que da minha mente pulam para o papel esvaziam os pulmões.
 As letras companheiras a me acompanhar estão, enquanto minhas lágrimas enxugam.

20 de maio de 2014

Espaço


O espaço só aumenta.
Nada para ocupar o lugar que está vagando.
O cheiro ainda impregnado em minha pele.
A gargalhada ainda ecoa pelo silêncio das paredes.
Os papéis em branco voam pela janela entreaberta.
O chão some dos meus pés.
Os murros crescem.
As lágrimas caem.
As mãos tremem.
O coração teima em continuar batendo.
A chuva cai.
Hoje o sol não virá.
Um dia talvez, volte.


Talvez, volte para o espaço que por hora vagando está.

25 de março de 2014

A xícara

A xícara que hora atrás continha o chá quente, agora cheia de ar frio está.
A mente antes cheia de planos mirabolantes para salvar o mundo, especialmente salvar as pessoas das artimanhas safadas e traiçoeiras das vãs relações sociais dos seres da sociedade, mantem-se agora, por instinto de sobrevivência em uma mente egoísta.
Cansada de lutar, chorar, sofrer, batalhar, buscar, correr, rastejar, calejar as mãos por outros que nem o olhar te dispensa.
Salvar o mundo?
Salvar as pessoas?
Apenas, simplesmente, apenas, amenizar as angústias e dúvidas dos outros, trabalhar pelo outro, ser pelo outro para o outro seja e tenha algo bom.
É possível que o que se julgue bom para o outro, para ele de nada lhe interesse. Nem a sua curiosidade desperta.
O ar frio que preenche a xícara é o mesmo que preenche o espaço deixado pelos mirabolantes na mente de outrora.
Queria ser o rei da floresta, com um rugido tal qual do Rei Leão!
Queria ser o malabarista que no alto da bicicleta de uma roda só faz os malabares dançarem livremente pelo espaço acima da sua cabeça.
Queria tanto. Queria nada.
Querer. Ter. Ser.
 A xícara quer ser lambuzada com o mais cremos chocolate quente de que se têm notícias por estas terras.
Porém, agora o ar frio a preenche.
Mas, ela não cansa. Espera paciente, que o filtro dos sonhos que balança na janela filtre alguns sonhos legais que a preencham de frescor novo. Frescor dos sonhos que andam esquecidos debaixo do travesseiro.