26 de abril de 2015

Lápis

 Tenho dois lápis que brilham.
 Eles adoram dançar ao som da música que ecoa pelo corredor.
 Tenho um lápis que não brilha.
 Ele também quer seguir o embalo da música que chega aos seus tímpanos. 
 Um ritmo frenético toma conta do papel que deseja ansioso os rabiscos sobre sua superfície branca.
 O papel chega a desejar que os três lápis dancem sobre sua superfície branca ao mesmo tempo, assim o esboço não demora tanto a ser gravado em suas curvas invisíveis. 
 Os pensamentos rodopiam tal um furacão de escala 7; o papel frenético chama os rabiscos; os lápis que brilham de tanto brilhar fazem o lápis que não brilha se sentir ofuscado.
 Tenho três lápis. Um papel. Uma música que vem do corredor. Um furacão de pensamentos soltos. E duas mãos. Mas consigo escrever com apenas uma delas. Logo, um lápis me basta. Mas não sei quando vou precisar dos outros dois lápis. Uma reserva sempre é recomendável. Assim, como reservar alguns pensamentos para o próximo rabisco do lápis.

Dias...

 O dia me chama. A noite ainda paira sobre o meu corpo inerte.
 Os raios de sol penetram a fresta da janela amarela.
 As estrelas ainda brilham no canto escuro do guarda-roupa cor de marfim.
 A cidade acorda.
O quarto adormece.
 Os sonhos se espreguiçam, 
 Os pesadelos se aconchegam.
 A vida quer pulsar, e vai pulsar assim que o medo deixar de paralisar.
 Aquele medo bobo que insiste em teimar.
 De tão teimoso até sua identidade já perdeu.
 Seu nome não se sabe.
 Seu endereço é desconhecido.
 Seus vestígios ainda se fazem sentir.
 Não se vê.
Só se sente.
 Presença ausente.
 Sem cor.
 Sem sabor.
 Somente dor.
 A dor do desconhecido que insiste em chegar, seja dia, seja noite.
 Haja raios de sol fulminando ou estrelas cadentes a brilhar.
 O lápis que brilha em tons azuis rabisca no papel os vestígios.
 De dias gris. 
 De dias normais.
 De dias que amanhecem com os sonhos que acordam em um quarto que insiste em permanecer dormindo.
 A cor do quarto é amarela.
 A cor da vida é um arco iris.
 A cor dos dias...

                                                                                                                                           ... essa é da cor que eu quiser.


Cativando paixões

 Saí pelo mundo em busca de paixões para cativar.
 Construí vários laços.

 Alguns de tão entrelaçados tentaram me estrangular.
 Puxaram os tapetes em que pisava. Cortaram os laços que eu nem sabia que existiam. Apenas senti eles sendo desfeitos.
 Ao me ver sem laços descobri que consigo voar.
 Voar por aí cativando paixões sem entregar os laços.
 Para onde vou com tantas paixões cativadas?
 Não sei.
 Só sei que cativar paixões é meu dogma.
 Porém agora aprendi que a lição de escolher as paixões que valem a pena cativar.
 Há se de ser um selecionador de paixões a serem cativadas.
 Paixões vazias são ilusórias, estas dispenso.
 Paixões nômades são passageiras, estas só servem para bagunçar tudo.
 Paixões sem cor são preguiçosas, estas podem cegar.
 Paixões voláteis são incandescentes, estas podem nos queimar.
 Preciso de paixões para cativar.
 Novas ou velhas.
 O tempo é um espaço livre.
 Paixões que me cativem e permitam encontrar a essência na simplicidade de uma flor qualquer.



Os 3 P's

Em meio a desenhos infantis encontro 3 p's.
3 p's solitários que juntos tornam-se multidão.
Entre estrelas, flores, raposas, trigos, aviões, desenhos, escritas que deixam suas marcas em folhas quaisquer, em almas que toquem suas palavras.
Os 3 p's gritam silenciosamente no canto de cada página suas essências, suas efemeridades, suas casualidades mundanas.
Fico a imaginar o encontro deles: o dia em que os 3 p's se encontraram. o dia que o Pequeno Príncipe aterrissou no Pó de lua.
E então só se via pó de lua para todos os lados.