9 de maio de 2019

Agonizando

O grito preso na garganta
As paredes geladas são calmante Às costas que latejam
Angústia a correr por cada vaso sanguíneo,
Cada resquício do meu corpo.
A alma clama por um pouco de paz
Um pouco de carinho
Um cadinho de esperança

Agonizando estou não apenas por mim
Mas
Pelos outros que um dia sonhariam em pisar pelos
Seus corredores
Ocupar seus assentos
Tornar-se parte desse universo

Agonizando estou para que os gritos sejam ouvidos e compreendidos.
Que em uma esquina qualquer a esperança nos arrebate
Inundando o olhar de novo com brilhos mil.  

Terapia com grito


Cada palavra grafada é um grito
Com cada grito vou fazendo a minha terapia
A terapia com grito alivia a alma
Dá um cadinho de sossego ao coração que pulsa agonizante
Vejo sonhos se esvaindo
Futuros desmoronando
Sonhos que se podia ter
Dizem que não podemos mais
Sonhar com um mundo mais justo parece ser crime mortal
 A mortalidade que mais grita é a da alma
Que tem arrancados seus sonhos
O olhar que perde o brilho
A mão que já não escreve mais poemas
As agulhas de tricô que não dançam mais
Sonhos que eram tecidos já não tem mais linha
Abortá-lo-emos
É a nova ordem

28 de setembro de 2017

Resoluções
Discursos
Expectativas
Quereres
Desejos
Ambições
Ditos
Silêncios
O que grita na lágrima que escorre pela face cansada?
O silêncio é quebrado em rompantes que açoitam quem sou
Querem que eu seja
Algo
Alguém
Que não sei ser.
Ser
Ou não ser
Sou assim
Querem que eu seja flor perfeita
Flor já sou, mas sou flor imperfeita


P.S. Sou o que sou e não o que querem que eu seja

Estações

Há dois tipos de estações
Mas são tão parecidas
Tempos e espaços de chegadas, estadas, partidas
Há o tempo da chegada
Como as folhas que brotam mansinhas anunciando um novo tempo
Como o apito do trem que anuncia que está chegando
Querendo seus espaços anunciam suas chegadas

As estadas são incertas
Em um dia primavera
Quando menos esperar o inverno lança seus flashes de presença
A estada do trem na estação é cronometrada

As partidas são distintas
As cores do outono teimam em demorar-se a partir, mesmo que o branco cubra os terrosos
Na estação pode-se partir pulando para o vagão e partindo daquela estação
Ou, pode-se escolher a partir daquela viagem de trem para uma estada mais prolongada naquela estação
Ou, inclusive, partir para longe da ideia de um dia seguir com o trem

Chegadas, estadas, partidas
Quem somos, quem escolhemos ser, quem conseguimos ser
Tal como nas estações não há como prever a certeza dos fatos e atos


23 de maio de 2017

Das coisas que ficam

O que fica do dia de hoje?
O trabalho entregue no prazo?
Aqueles cinco minutos a mais no aconchego dos cobertores quentinhos?

O que fica da semana que passou?
O trabalho apresentado?
Aquela tarde de risadas regadas a pensamento soltos com amigos queridos que há tempos não se viam?

O que fica do mês que passou?
Os prazos cumpridos?
Os minutos que pareceram o tempo parar ao aconchegar-se, demoradamente, nos braços do seu amor?

O que fica do ano que passou?
Os trabalhos, demandas, exigências, prazos atendidos satisfatoriamente?
Os instantes que cuidamos e dedicamos àqueles que nos fazem bem?

O que fica da vida que passou?


                ... a cada fragmento de segundo que passa é um fragmento de vida que se dissipa no tempo e no espaço... 

Prioridades

O que escolher como prioridade ao não sabermos quanto tempo ainda nos resta?
Deixar que o cotidiano feche a cortina da vida e do viver nos possibilitando ver apenas demandas, trabalhos, prazos, correrias, presas...
Por vezes, apenas quando o corpo pede um pouco mais de calma e a vida um pouco mais de alma é que nos permitimos abrir os olhos e enxergar fragmentos de outras prioridades: cores, sabores, a brisa batendo na cara, os pés sendo beliscados pela grama, o carinho sem pressa no amigo canino que sempre está disposto a receber um carinho...
... permitir-se esvaziar a mente...
... curtir a própria companhia
.... demorar-se nos braços do amado

Redefinir prioridades...

18 de julho de 2016

Dias de outono

É chegado o tempo em que tons de marrons e alaranjados cobrem a copa das árvores
As folhas gritam que um ciclo está a se fechar
A brisa já está mais calma
Enquanto as folhas caem sopradas pelo vento, um novo ciclo se inicia
A vida está ali
As folhas vivem
As arvores vivem
Estas precisam deixar as folhas irem para que novas cheguem e lhe abriguem do sol no próximo verão
Dias de outono são dias nos quais as arvores abrem mão do seu orgulho para se despirem, para se recriarem, [re]significarem, produzirem novos sentidos
Se a árvore for orgulhosa não abrirá mão de suas folhas
Porém se deixar o orgulho fora de foco poderá olhar para o essencial, ver suas raízes alicerçadas ao chão e ao olhar para o lado poderá ver outra árvore a querer compartilhar dos dias de outono
Talvez, até pelos próximos outonos...